segunda-feira, 13 de abril de 2015

Teste de matemática para adolescentes em Singapura é um fenómeno viral.

Parece que, desta vez, o virus memético que se está a espalhar pela internet é um "puzzle" matemático. Já não era sem tempo.



O problema saiu num teste de matemática para jovens teenagers em Singapura e tornou-se popular depois de aparecer na televisão. Singapura tem sempre resultados de topo em provas internacionais e o problema é muito interessante e difícil. Durante uns momentos pareceu-me que não tinha solução. Mas tem.

O problema é assim:


This is a logic test that was part of the Singapore and Asian Schools Math Olympiad – a competition for teenagers.

Traduzindo:

O Albert e o Bernard tornaram-se amigos da Cheryl e eles querem saber quando ela faz anos. A Cheryl da-lhes uma lista de 10 datas possiveis.

Maio, dia 15, 16 ou 19
Junho 17 ou 18
Julho 14 ou 16
Agosto 14,15 ou17

A Cheryl então diz ao Albert e ao Bernardo respectivamente a cada um o mês e o dia, (ou seja diz o mês ao Albert e diz o dia ao Bernard).

Depois a conversa é assim:

Albert: Não sei quando é o aniversário da Cheryl mas sei que o Bernardo também não sabe.

Bernardo: Ao principio não sabia quando era, mas agora já sei.

Alberto: Sendo assim eu também já sei.

Quando é o aniversário da Cheryl?


A discussão sobre a resposta correcta parece a do famoso vestido azul e preto (era mesmo azul e preto).


Acho que consegui resolver e passo a explicar o meu raciocínio. Proponho que o leitor não prossiga sem tentar primeiro.

É assim:

O Albert sabe o mês. E diz que não sabe a data mas que sabe que o Bernard também não pode saber. Isto quer dizer que o mês que a amiga lhe disse não pode ser nenhum dos meses que permitam ao Bernard saber imediatamente a data, o que aconteceria se fossem os meses Maio e Junho. Podia acontecer, caso fosse um destes meses, que o dia fosse 19 ou 18, e assim o Albert não podia saber que o Bernard não sabia. Podemos assim cortar estes dias e estes meses.

Sobram apenas os meses de Julho e Agosto para competir pela data certa. Neste ponto o Bernard  reconhece que agora já sabe. Isto quer dizer que o dia que a amiga lhe disse só tem uma soluçao comum nestes meses. Por isso podemos cortar os dias de 14 de Julho e 14 de Agosto.  O Bernard neste momento sabe a data porque a cada dia só corresponde um mês.

Mas o Albert ao saber que o Bernardo só com esta informação ficou a saber a data, conclui que ele próprio então também sabe. Porque ele sabe qual é o mês, falta-lhe o dia. Por este momento ele percebe que os dias só podem ser o 15, o 16 e o 17, pela certeza que o Bernard tem. Mas ele sabe o mês e consegue logo saber a data nesta situação. Isto dá-nos a resposta a nós. O unico dia que ele pode saber  porque que só tem uma correspondencia em meses é o dia 16, que corresponde a Julho, Logo a data certa é o 16 de Julho.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Desigualdade económica. É muito pior do que o que pensamos.

O mundo é muito mais desiquilibrado na distribuição da riqueza do que aquilo que as pessoas querem.

Por exemplo, em Portugal, as pessoas consideram que um CEO não deveria ganhar mais do que 6 vezes o que ganha um trabalhador não qualificado. 

No entanto, ganha cerca de 51 vezes o que ganha um trabalhador não qualificado.

Pelo mundo fora, em média o problema repete-se. Há pior e há melhor.

Curiosamente, existe um consenso através de vários paises e cores politicas acerca do valor que nós em Portugal também consideramos otimo.

É caso para se dizer que vivemos num mundo de extrema direita e não temos noção disso.

Levanta-se a questão: Porque toleramos isto? A explicação é complexa, mas não ter noção do grau de desigualdade é provavelmente um factor importante. Outro é o otimismo - cada um achar que existe mobilidade económica suficiente para chegar ao topo se trabalhar e merecer ( e toda a gente acha que é um pouco melhor que os outros). Outro, relacionado com este, será a cultura de que se não é rico é porque não merece.

No entanto, cerca de 0,7% da população mundial tem 41% da riqueza. Isto não sugere nada que possa haver qualquer espécie de meritocracia, mesmo que cada um devesse ser tratado de acordo com as suas capacidades produtivas .


Em conclusão, numa grande maioria de países, as politicas são muito mais à direita que aquilo que mesmo os votantes de direita acham razoável. Portugal é um desses  países. Um estudo  mais profundo sobre as causas seria interessante. Mas para já melhorar a informação é o ponto de partida.

Ler mais:

Artigo base:
https://richarddawkins.net/2015/03/economic-inequality-its-far-worse-than-you-think/

Na Scientific American:
http://www.scientificamerican.com/article/economic-inequality-it-s-far-worse-than-you-think/?WT.mc_id=SA_syn_RDFRS

Ver outras ligaçoes no texto do post.

sábado, 14 de março de 2015

Pressão para publicar

O panorama da investigação cientifica atual é caracterizado pela pressão para publicar. O famoso "publish or perish". 

Eu penso que os aspectos negativos dessa filosofia se começam a notar. E não me refiro às fraudes (para publicar e sobreviver).

Por exemplo, um dos mais relevantes físicos da atualidade, o Prof, Peter Higgs, notou que, se fosse hoje não teria conseguido chegar à descoberta teórica do bosão com o seu nome. Segundo o que ele diz, podemos inferir que foi um trabalho lento e persistente, sem importantes descobertas intermédias (que lhe permitissem manter uma posição de investigador). Algumas coisas demoram o seu tempo. 

De facto, neste contexto, será de esperar que descobertas extraordinárias, sobretudo as que sejam disruptivas com o conhecimento anterior, sejam implacavelmente prevenidas. Porque é provável que exijam muito tempo de investigação sem dar resultados notáveis. Vou tentar explicar melhor.

De acordo com o filósofo da ciência Thomas Khun, a evolução científica processa-se de duas maneiras. De forma normal ou de forma revolucionária. 

A ciência normal é aquela que é construída incrementalmente sobre o conhecimento anterior. Passo a passo, sem mudar as regras.

A revolucionária é a que dá origem a novos paradigmas. Os paradigmas são, na pratica, novas plataformas conceptuais para se produzir ciência normal. São caracterizados por descobertas que lançam uma nova luz sobre a realidade e que podem não fazer grande sentido dentro do enquadramento teórico anterior. Ou seja, podem ser de valor questionável até se perceber se chegam a algum lado. Ou podem mesmo ser inconsistentes dentro dos paradigmas vigentes e por isso dificilmente compreensíveis  para o resto da comunidade (se forem totalmente incompreensíveis, como Khun propunha, não creio que pudessem chegar a ser formados, e aqui discordo ligeiramente de Khun - de facto algumas descobertas revolucionárias foram em pouco tempo adotadas e elogiadas, desde a teoria da evolução à da relatividade).

Então, é de prever que se houver pressão para publicar, os esforços dos cientistas sejam sobretudo de ciência normal, ou seja, incremental, sem arriscar caminhos potencialmente revolucionários mas que podem não levar a lado nenhum. É mais seguro explorar caminhos que dêem resultados imediatos e convincentes. De facto, afirmações extraordinárias requerem justificações extraordinárias, e isso é o trabalho de quem quer revolucionar a ciência.

Assim, dado a pressão para publicar, este domínio previsto da ciência normal é o que se verifica na prática. Apesar de haver uma quantidade de publicações crescentes e de o conhecimento duplicar a cada 9 anos, os artigos que formam a base do nosso conhecimento cientifico e são mais citados, estão cada vez mais velhos. Os artigos recentes são sobretudo citados durante um curto periodo de tempo após a sua publicação e vão perdendo pertinência rapidamente. Os nossos paradigmas em uso estão a envelhecer. Não há revoluções. 

Isso quer dizer que não há novos paradigmas para descobrir? Talvez, mas parece-me pouco provável. Parece-me que a explicação mais plausível, dado que há muita coisa que sabemos que não conseguimos explicar, é a de que não se descobrem novos paradigmas porque não os estamos a procurar como devíamos.

Isto quer dizer que a ciência nega as ideias loucas da pseudociência porque não está a funcionar de um modo que permita revoluções? Também não me parece, já que infelizmente a popularidade de muitas alegações pseudocientíficas levou a que se gastassem preciosos recursos a ver se havia ali alguma coisa de interessante. E uma coisa que não se pode dizer das revoluções científicas é que elas não provêm de investigação rigorosa. O método é fundamentalmente o mesmo. A intensidade do trabalho e a demora a chegar a resultados é que varia. Não é o mesmo que dizer algo do género: "não sabemos logo é verdade que... (colocar aqui pseudociência preferida)" como se propõe por aí.

Isto quer dizer que devia haver menor pressão para publicar? Provavelmente. Pelo menos na macro escala do empreendimento cientifico.. Assim vamos continuar a usar paradigmas centenários. 


Notar no entanto que de ponto de vista tecnológico isto tem sido muito eficaz, quero dizer, custo-eficiente ( o que não é de todo negligenciável). As nossas vidas têm melhorado muito com a aplicação incremental do conhecimento e provavelmente procurar novas teorias não é uma tarefa lucrativa. Resta dizer que se a tecnologia é a ciência orientada para produtos então que guardarão ainda os próximos paradigmas para nos trazer?

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Ébola: Não é nenhum embuste, é sério: Contágio indirecto, taxa de crescimento de novos casos, patologia.

Um estudo com o virus Ebola do Zaire mostrou que o virus pode ser recuperado de superficies secas, a 4ºC, durante vários dias [1]. Em liquidos idem. Uma das amostras secas ainda tinha virus ao fim de 50 dias [1]. O mesmo estudo mostrou que o virus pode ser transportado em particulas suspensas no ar, isto é, pode ser transmitido por aerossois [1]. 

Não é o unico estudo que aponta para a possibilidade não remota de transmissão indirecta. Outro estudo [2] corrobora a resistencia do virus, desta vez testada no escuro (com luz ultravioleta a resistencia é diferente [3]) e a temperatura ambiente. Neste outro estudo o virus  "aguentou" cerca de 6 dias em superficies secas de vários materiais [2].

Em relação ao facto do virus poder ser transmitido por aerossois também há mais estudos. Por exemplo foi mostrado que porcos transmitem o virus a primatas "via aerea" [4]

Tudo isto parece explicar o problema do contágio aos trabalhadores de saúde. Agora sabemos que não acontece apenas em Africa em condições supostamente propícias. Acontece pelos outros paises especiais do primeiro mundo também. Os relatos dos trabalhadores de saúde infectados, são consistentes na dificuldade que refletem em indicar como se deu a infecção. Isto só por si devia levantar algumas bandeiras vermelhas.

Embora o contágio directo seja provavelmente o modo mais comum de transmissão do Ebola, há razões para acreditar que a transmissão indirecta do virus acontece com alguma frequência.

Isto torna as medidas de protecção um bocado mais complicadas. O virus é destruido pela lexivia (10 minutos) e talvez por aí passe a solução  - factos impermeaveis completos com mascara lavados na totalidade antes de serem despidos. Mas é um berbicacho.

Por estas e por outras não compreendo artigos como o que aparece no Público dizendo que o problema do Ebola "é um embuste". O autor é um médico.

Sem querer alarmar demais, longe disso, não é embuste nenhum, as mortes e a taxa de infecção são bem reais -  não posso estar mais em desacordo com o autor. Existem razões para se levar esta ameaça a sério e divulgar a melhor informaçao que existe para o bem de todos.

Outra coisa preocupante que o artigo diz é que basta fazer transfusões e rehidratar e está tudo bem. E as vasculites? E a necrose hepatica? E a imunodepressão? E quando a hemorragia é nos pulmões? Também se tratam com transfusões e fluidoterapia apenas ou a taxa de mortalidade é alta? Claro que é. Mesmo com soro hiperimune não temos grandes garantias.E de onde se vao buscar tanto soro para os milhares de infectados, reais e potenciais?

Este tipo de menosprezo do problema não me parece sequer uma maneira capaz de desinquietar a população. Não com informação tão enviezada quando se pode ver que as coisas não são bem assim.

Por fim nota que são poucos os casos num determinado espaço de tempo. Mas como noutros problemas, o sinal de alerta não é dado pelo numero absoluto de casos num determinado espaço de tempo, mas sim pelo crescimento destes. E aqui temos razões de sobra para levarmos a coisa a sério: o numero de infectados duplica a cada 3 ou 4 semanas [5]. É exponencial.

Na realidade temos é razões para pensar e agir -  chamar a isto embuste não ajuda nada. O "embuste", a este ritmo,  vai chegar aos 20 000 casos em Novembroquando terá um ritmo de 5000 a 10000 novos casos por semana.




[1] T.J. Piercy,  S.J. Smither,  J.A. Steward,  L. Eastaugh and M.S. Lever "The survival of filoviruses in liquids, on solid substrates and in a dynamic aerosol " : http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1365-2672.2010.04778.x/full

[2]Jose-Luis Sagripanti1, Amanda M. Rom and Louis E. Holland,"Persistence in Darkness of alphaviruses" Ebola virus, Lassa Virus deposited on solid surfaces, http://link.springer.com/article/10.1007/s00705-010-0791-0/fulltext.html

[3] C. David Lytle and Jose-Luis Sagripanti "Predicted Inactivation of Viruses of Relevance to Biodefense by Solar Radiation", http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1280232/

[4] Hana M. Weingartl, Carissa Embury-Hyatt, Charles Nfon, Anders Leung, Greg Smith & Gary Kobinger " Transmission of Ebola virus from pigs to non-human primates", http://www.nature.com/srep/2012/121115/srep00811/full/srep00811.html


[5] WHO Ebola Response Team

Ebola Virus Disease in West Africa — The First 9 Months of the Epidemic and Forward Projections

http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1411100#ref11 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O processo. Pensar outra vez.

Conforme a curiosidade me levou a procurar conhecimento e respostas fui entrando devagar no próprio processo de adquirir conhecimento:

 Como sabemos o que sabemos? Como distinguir duas respostas uma da outra? O que é que faz uma boa justificação?

Transversal à ciência e à filosofia, mesmo na área onde estas se confundem, está o pensamento critico para trazer alguma luz ao próprio modo de pensar.

Inclui a lógica formal e informal, matemática e estatística, alguma linguística e conhecimento de princípios científicos. O pensamento critico é o acto consciente (e lento mas eficaz)  de usar estas ferramentas na avaliação de uma afirmação ou argumento.

Na minha opinião, é essencial para uma democracia funcional.

Aconselho a todos os que puderem, a participação neste curso online grátis, onde podem ter uma introdução à matéria:

"Think Again, How to reason and argue".

Já está a decorrer, mas não é tarde.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma asneira não justifica outra asneira.

Frequentemente nas discussões sobre as medicinas alternativas, os seus proponentes recorrem para o ataque à pratica da medicina convencional. Não atacam os métodos de investigação, os resultados dos ensaios, a ciência básica, mas sim a alegada má pratica de quem a exerce, normalmente recorrendo a evidência anedótica.

Mas a questão é esta: Mesmo se os médicos que procuram a medicina baseada na ciência cometem erros, isso não diz nada acerca da validade das outras alegadas medicinas. Mais vale errar a fazer a coisa certa do que ser prefeito a fazer a coisa errada. É que errar não é apenas algo que vá acontecer aos médicos que praticam a medicina baseada na ciência. Infelizmente acontece a todos.

Devíamos pelo menos tentar fazer aquilo que sabemos que funciona. E que sabemos que funciona e não apenas acreditamos que funciona, estando a diferença na justificação que temos para a nossa crença.

E só porque errar acontece a todos, passar aceitar como bom qualquer medicina alternativa, é um disparate.

Tem de ter sustentação cientifica, alguma justificação que funciona. Se não tem, não são os erros dos outros que lhe dão essa justificação. Sobretudo quando a medicina baseada na ciência, com todas as suas falhas, dá tantos resultados, que não se conseguem de outro modo.

Claro que também é mais fácil apontar o erro quando os procedimentos são tão claros e objectivos, bem descritos, bem registados e tão expostos.



sábado, 31 de agosto de 2013

A vacina da raiva não tira o faro aos cães.

A ideia que tem levado alguns caçadores a andar a pressionar os veterinários para colocar o selo da raiva na caderneta sem vacinar é perigosa. E é treta.

Não há qualquer evidência de que a vacina da raiva tire o faro aos cães.

Talvez essa ideia venha de alguém, alguma vez, que leu que o vírus se replica nos lobos olfactivos em determinada fase da doença. Mas a questão é que as vacinas que se usam não têm vírus vivo - que assim  não causa a doença, não se replica.  Está inativado, morto, acabado. Só serve para provocar resposta imunitária  (porque essa resposta é iniciada por determinadas partes dos agentes infecciosos apenas).

É um mito, como tantos outros acerca das vacinas, cuja popularidade se deve ao "diz que disse" e que como outros pode ser perigoso. Existem reacções adversas às vacinas mas as graves são raras. E esta não é uma delas. E mesmo que fosse, nunca justificaria aldrabar as cadernetas de vacinas.

Por este andar, para tirar a pressão de cima dos veterinários e para garantir a saúde publica, ainda pode vir a ser preciso exigir ter teste de anticorpos,  feito no L.N.I.V., 1 mês após a vacina, para qualquer cão encontrado em ambiente de caça ou sugestivo de participar nessa actividade. Com as despesas todas do processo para o caçador.