quinta-feira, 30 de abril de 2015

Randi a desmascarar vendedores de tretas.

"Amazing" James Randi foi inicialmente um ilusionista (ou mágico se preferirem) que dedicou a sua vida a divulgar e promover uma abordagem critica às alegações de fenómenos paranormais. O seu conhecimento dos truques de magia foi util para rápidamente perceber como as aldrabices eram impigidas a um público maior. Foi e é (particularmente através da sua fundação), um grande defensor do céticismo cientifico tendo desmascarado vários casos de charlatães famosos.

O seu prémio para quem consguir provar um fenómeno sobrenatural continua por levantar, apesar de os concorrentes e o júri estarem de acordo acerca das condições em que o teste vai ser feito antes de começar.

Escolhi alguns videos do James Randi a desmascarar tretas para por aqui.

O primeiro é o de James Hydrick, que dizia ter poderes mentais que desenvolveu com a ajuda de um mestre chinês. Hydrick movia lapis e levantava folhas sem lhes tocar e tinha já estado antes num programa de TV chamado "That´s Incredible" (deu em Portugal) onde conseguiu levar a sua mentira avante apesar da saudável suspeita do apresentador desse espetáculo. Randi de uma maneira muito simples consegue expor a mentira de Hydrick de uma maneira convincente. É incrível a maneira como Hydrick continua a mentir sem dar parte de fraco depois de ser desmascarado. Viria a admitir tudo apenas mais tarde.




O segundo é de Peter Popoff, um popular milagreiro, que usava um auricular de radio para receber instruções da mulher acerca das pessoas da audiencia. Deste modo conseguia surpreendê-las acerca do que sabia. Randi gravou a comunicação para todos podermos ouvir.










O terceiro começa com a exposição de Uri Geller depois continua com o caso já referido de Popov. Geller dobrava talheres com a mente e estava a ter uma popularidade formidável. Num programa (Johnny Carson) em que tinham convidado Geller para motrar os seus poderes, a conselho de Randi, trocaram os talheres dele por outros vulgares. Quando Geller, ao vivo, se apercebe que os talheres não são os seus, fica visivelmente inquieto. Sabia que o seu truque ia falhar, ao vivo. Tanto quanto sei nunca admitiu a treta, mas a fama foi-se em pouco tempo. Moveu vários processos judiciais a James Randi.







Mas um dos mais giros é a descrição do que fazem os cirurgiões filipinos:







Para terminar um em que é usado um "espião" para desmascarar outros milagreiros:





Islão será a religião com maior crescimento até 2050, no mundo e na Europa.

Segundo um estudo do Pew Research Center a religião que mais vai crescer no mundo até 2050 é o Islão. Por essa altura, globalmente, deverá haver um numero quase igual de cristãos e muçulmanos.

Isto será verdade inclusivé na Europa, onde o cristianismo continuará a ser a religião predominante mas em declinio. Enquanto que a religião muçulmana praticamente será o dobro da actual a religião cristã terá um crescimento negativo de cerca de 17%.

Em todo o mundo um dos fatores mais importantes do crecimento do Islão são os níveis de fertilidade com uma média de 3,1 filhos por casal. Na Europa, esse é também um dos factores principais do seu crescimento, com 2,1 filhos por casal contra 1,6 na religião cristã. De notar que o valor de reposição para manutenção de uma população é de 2,1 filhos por casal. A baixa fertilidade é de resto a causa para a totalidade da população europeia ter uma previsão de crescimento negativa.

Em relação aos que não se identificam com qulquer religião, que podem ser ou não ateus, o estudo prevê que a sua participação na composição das sociedades da Europa e da América do Norte aumente, até 23 e 26% respectivamente, apesar de uma taxa de fertilidade baixa. O seu crescimento acima da média deverá ser explicado devido ao "switching" ou a mudança de crença ou abandono da crença. Enquanto que a religião muçulmana terá uma taxa de fertilidade confortávelmente acima da média, a religião cristã terá apenas o suficiente para manter os seus numeros, com os não religiosos a alcançarem apenas 2,1%. Mas o switching na Europa deverá ocorrer sobretudo a partir da religião Cristão. Nos paises de maioria muçulama o switching não deverá ter impacto.



terça-feira, 28 de abril de 2015

As definições

Havia um filósofo que dizia que o significado das palavras era o uso. Isso parece-me razoável. Quando dizemos "morango" produzimos uma sequencia de sons que aprendemos que indicam um fruto vermelho. Mas depois usamos também essa palavra para indicar um desenho de um morango. Com um bocado de azar, existe alguém com gato chamado "Morango". E o uso deu uma série de significados novos à palavra "morango". Ainda assim, se falarmos em morangos, requer outro tipo de filosofos para questionar se não estamos a falar de laranjas.

E o problema é que eles andam aí.

Em vez de utilizar a linguagem para comunicar, utilizam a linguagem para impedir essa comunicação.

Por exemplo, queremos expor uma ideia que lemos sobre a inteligência ou avançar um argumento e vem logo o comentário "mas o que é a inteligência?". Ou o que é a consciência ou Deus etc.

Se fosse para clarificar os conceitos e determinar limites, podia dar geito para a conversa, mas muitas vezes é mais um tique de pseudoprofundidade que serve apenas para tornar as palavras tão ambiguas como possíveis.

Este tipo de filosofos, porque isto deve ser daquelas coisas a que se referem quando se fala em "em  outras filosofias" consegue rápidamente transformar a conversa num ensaio sobre a inteligência das bactérias, ou sobre a possibilidade de Deus ser tudo o que existe (e isto é muito profundo, não brinquemos, e para mais prova que Deus existe) etc, conforme fosse o tema inicial.

O problema  mais grave é que isto começa a aparecer na literatura cientifica. O estudo da fisiologia vegetal agora tem um campo chamado neurobiologia. É engraçado porque as plantas não têm neurónios. Mas tudo bem, podiam ter chamado Miguel ou Tobias, por isso neurobiologia parece melhor. O problema é que querem com isso determinar que estão a estudar algo que será equivalente ao sistema nervoso das plantas. E assim, ja podem ali   ver todas as caracteristicas do sistema nervoso ali representadas. Se uma planta ao fim de 5 flores dá uma com cor mais ténue fica provado que a planta tem memoria) esta é inventada, o estudo original é com biopotencias mas o problema é o mesmo). Se os estomas da planta interagem entre si em cadeia, ao ponto de haver influencias para lá do vizinho do lado , (possivelmente, ainda não está provado) estamos a falar de algo como um sistema nervoso central, e por aí fora.

Mas a coisa é assim. Por este processo eu posso argumentar que um cepo é inteligente, ora vejamos;

Quando dou uma machadada no cepo, ele comunica a marretada a todas as partes do seu corpo soba a forma de energia mecânica e essa energia mecânica pode ser objecticamente medida em Newtons, o que prova não só que há comunicação de informação pelo corpo do cepo mas também que ele tem um sistema nervoso central. Para mais, fica uma marca no local da machadada que corresponde à parte da lamina que se enfiou no cepo, logo o cepo tem memória. O cepo também processa informação tal como se pode provar pela identificação dos estimulos e respostas diferenciais e de facto a machadada não produz a mesma memoria ou reacção que a martelada. Normalmente reage à primeira com a multiplicação ou racha e à segunda com uma depressão com a forma do martelo. E agora, não podemos dizer que o cepo não sente já que dificilmente podemos dizer que não há alterações no corpo do cepo (e já vimos que podemos medir essa percepção por todo o cepo). Portanto os cepos devem sentir dor. Vamos fazer a liga da defesa do cepo.

E cá está, Brilhantemente reduzi qualquer limitação que pudesse ser posta às palavras "memória", "inteligencia" e sei lá mais o quê para acabar com a limitação que qualquer um quizesse por no magnifico cepo, certo?

Errado. Apenas desprovi as palavras do sentido que o seu uso habitual e cientifico lhes deu. Mas não produzi nenhum argumento acerca da senciencia dos cepos, ou da inevitabilidade de que o cepo seja senciente caso eu queira falar sobre senciencia. O que eu fiz agora foi mesmo uma redução ao absurdo (surpresa!). Para ilustrar que o que temos de fazer para avançar as discussões é definir os termos de modo a que saibamos do que estamos a falar, e, não para que não sejamos capazes de os usar...

Nota; Vem em sequência do post anterior e dos estudos de neurobiologia vegetal que descobri por aí. Por mim podem continuar a usar esse termo e até os outros todos (memória, inteligencia, etc), mas para isso convinha ter a honestidade de dizer que não se referem exactamente à mesma coisa que essas palavras querem dizer  para alguns participantes no reino animal. Por exemplo, o termo inteligência aparece muitas vezes na informática. Mas muitas vezes também é acrescentado o termo "artificial" que ajuda a perceber que não estamos a falar exactamente da mesma coisa (e penso que ainda ão estamos, embora eu suspeite que ela está muito mais próximo da inteligencia humana que a chamada inteligência das plantas).

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Nope, as plantas não sentem.

Para alguns isto pode não parecer noticia de ultima hora, mas deparei-me recentemente com o argumento de que não vale a pena evitar comer carne de animal (e assim reduzir o sofrimento associados com o abate) porque teríamos de comer vegetais e as plantas também sofrem. Foi me dito inclusivamente que isso estava cientificamente provado e mandaram-me ligações de jornais com essa noticia.

Não, não está cientificamente provado. E as plantas não sofrem. Mesmo se considerarmos (como faz este autor) que o fototropismo é "ver", que quimiotaxia é "cheirar" e por aí fora. Não há no organismo vegetal uma estrutura complexa o suficiente para produzir um mapa do estado desse mesmo organismo. E sem essa estrutura não há sentimento de emoções. Até pode haver emoções se as definirmos como respostas organicas (quase como faz Damásio), mas não as sentimos (notar que as emoções de Damasio não são reaçoes organicas são respostas organicas em que o cérebro é um dos participantes)... Talvez se andarmos às voltas com o significado da palavra "sofrer" possamos encontrar uma construção do conceito em que faça sentido dizer que as plantas sofrem. Mas se o fizermos, esse sofrimento nunca será como o gerado por um sistema nervoso rápido, centralizado, e complexo ao  ponto de ser capaz de se mapear a si próprio. Na melhor das hipoteses, se a planta sofre não sabe que sofre. E certamente que não pensa sobre o seu estado. A haver um sofrimento, ele será mais consequencia da nossa definição que do verdadeiro sofrimento da planta. Porque ela nunca vai saber disso.

Existe o argumento de que existe processamento de informação e comunicação entre as células vegetais. E que não sabemos o que é a inteligencia, a consciencia ou o sentimento. Logo não sabemos se as plantas têm inteligencia, consciencia e sentimento. Mas a verdade é que temos de usar o que sabemos para compreeder o universo (e não o que não sabemos) e é possivel justificar umas afirmações melhor que outras. E sabemos algumas coisa acerca da inteligência, da consciência ou do sofrimento. E não parece haver o suficiente de processamento na planta que dê para o gasto necessário ao processamento de emoções. Nem faz sentido que houvesse.


Existem comunicações entre células e texistem todas estas respostas complexas ao ambiente, certo. Mas compreendemos razoavelmente bem como elas se processam e são de facto a razão porque podemos dizer com certeza que as plantas estão vivas mas ainda assim, que sentir algo como sofrimento é uma evolução sobre o processo homeostático puro e duro que não é nada plausível que exista.

Até podemos dizer que sabemos isso porque sabemos o que é sofrer. E sabemos que isso requer mais que o processo homeostático em si, ou mesmo apenas da existencia de um sistema nervoso básico. A dor pode ter causa no corpo, mas é sentida no cerebro. E sob anestesia as coisas não doem. A anestesia não funciona ao nível da formação de sinalizadores da dor, como os analgésicos, mas sim no cérebro, que é precisamente onde nós sentimos a dor - e assim não sentimos.

Evolutivamente também não faz muito sentido esperar que as plantas sofram. Não há assim tanto que elas possam fazer para evitar o sofrimento. Não faz sentido a planta ser capaz de fazer grandes planos para evitar o sofrimento se não é capaz de os por em prática. Por isso não faz sentido existir algo como o sofrimento. A dor para a planta não deverá ser mais que uma simples reação de inibição e deslocação de recursos, tipo crescer de um lado e não de outro, ou eventualmente produzir frutos mais venenosos. Não faz sentido que seja um sentimento de dor.

Resumindo, num animal existe um processamento centralizado da dor a que se pode dar o nome de sentimento. Sentimos a dor. Ela é sinalizada a uma unidade de processamento central, o cerebro, que a coloca num mapa que inclui o corpo, o próprio cerebro e o meio exterior. Sem isso não ha sentimento de dor. E falar em dor que não se sente não é algo que faça muito sentido.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Teste de matemática para adolescentes em Singapura é um fenómeno viral.

Parece que, desta vez, o virus memético que se está a espalhar pela internet é um "puzzle" matemático. Já não era sem tempo.



O problema saiu num teste de matemática para jovens teenagers em Singapura e tornou-se popular depois de aparecer na televisão. Singapura tem sempre resultados de topo em provas internacionais e o problema é muito interessante e difícil. Durante uns momentos pareceu-me que não tinha solução. Mas tem.

O problema é assim:


This is a logic test that was part of the Singapore and Asian Schools Math Olympiad – a competition for teenagers.

Traduzindo:

O Albert e o Bernard tornaram-se amigos da Cheryl e eles querem saber quando ela faz anos. A Cheryl da-lhes uma lista de 10 datas possiveis.

Maio, dia 15, 16 ou 19
Junho 17 ou 18
Julho 14 ou 16
Agosto 14,15 ou17

A Cheryl então diz ao Albert e ao Bernardo respectivamente a cada um o mês e o dia, (ou seja diz o mês ao Albert e diz o dia ao Bernard).

Depois a conversa é assim:

Albert: Não sei quando é o aniversário da Cheryl mas sei que o Bernardo também não sabe.

Bernardo: Ao principio não sabia quando era, mas agora já sei.

Alberto: Sendo assim eu também já sei.

Quando é o aniversário da Cheryl?


A discussão sobre a resposta correcta parece a do famoso vestido azul e preto (era mesmo azul e preto).


Acho que consegui resolver e passo a explicar o meu raciocínio. Proponho que o leitor não prossiga sem tentar primeiro.

É assim:

O Albert sabe o mês. E diz que não sabe a data mas que sabe que o Bernard também não pode saber. Isto quer dizer que o mês que a amiga lhe disse não pode ser nenhum dos meses que permitam ao Bernard saber imediatamente a data, o que aconteceria se fossem os meses Maio e Junho. Podia acontecer, caso fosse um destes meses, que o dia fosse 19 ou 18, e assim o Albert não podia saber que o Bernard não sabia. Podemos assim cortar estes dias e estes meses.

Sobram apenas os meses de Julho e Agosto para competir pela data certa. Neste ponto o Bernard  reconhece que agora já sabe. Isto quer dizer que o dia que a amiga lhe disse só tem uma soluçao comum nestes meses. Por isso podemos cortar os dias de 14 de Julho e 14 de Agosto.  O Bernard neste momento sabe a data porque a cada dia só corresponde um mês.

Mas o Albert ao saber que o Bernardo só com esta informação ficou a saber a data, conclui que ele próprio então também sabe. Porque ele sabe qual é o mês, falta-lhe o dia. Por este momento ele percebe que os dias só podem ser o 15, o 16 e o 17, pela certeza que o Bernard tem. Mas ele sabe o mês e consegue logo saber a data nesta situação. Isto dá-nos a resposta a nós. O unico dia que ele pode saber  porque que só tem uma correspondencia em meses é o dia 16, que corresponde a Julho, Logo a data certa é o 16 de Julho.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Desigualdade económica. É muito pior do que o que pensamos.

O mundo é muito mais desiquilibrado na distribuição da riqueza do que aquilo que as pessoas querem.

Por exemplo, em Portugal, as pessoas consideram que um CEO não deveria ganhar mais do que 6 vezes o que ganha um trabalhador não qualificado. 

No entanto, ganha cerca de 51 vezes o que ganha um trabalhador não qualificado.

Pelo mundo fora, em média o problema repete-se. Há pior e há melhor.

Curiosamente, existe um consenso através de vários paises e cores politicas acerca do valor que nós em Portugal também consideramos otimo.

É caso para se dizer que vivemos num mundo de extrema direita e não temos noção disso.

Levanta-se a questão: Porque toleramos isto? A explicação é complexa, mas não ter noção do grau de desigualdade é provavelmente um factor importante. Outro é o otimismo - cada um achar que existe mobilidade económica suficiente para chegar ao topo se trabalhar e merecer ( e toda a gente acha que é um pouco melhor que os outros). Outro, relacionado com este, será a cultura de que se não é rico é porque não merece.

No entanto, cerca de 0,7% da população mundial tem 41% da riqueza. Isto não sugere nada que possa haver qualquer espécie de meritocracia, mesmo que cada um devesse ser tratado de acordo com as suas capacidades produtivas .


Em conclusão, numa grande maioria de países, as politicas são muito mais à direita que aquilo que mesmo os votantes de direita acham razoável. Portugal é um desses  países. Um estudo  mais profundo sobre as causas seria interessante. Mas para já melhorar a informação é o ponto de partida.

Ler mais:

Artigo base:
https://richarddawkins.net/2015/03/economic-inequality-its-far-worse-than-you-think/

Na Scientific American:
http://www.scientificamerican.com/article/economic-inequality-it-s-far-worse-than-you-think/?WT.mc_id=SA_syn_RDFRS

Ver outras ligaçoes no texto do post.

sábado, 14 de março de 2015

Pressão para publicar

O panorama da investigação cientifica atual é caracterizado pela pressão para publicar. O famoso "publish or perish". 

Eu penso que os aspectos negativos dessa filosofia se começam a notar. E não me refiro às fraudes (para publicar e sobreviver).

Por exemplo, um dos mais relevantes físicos da atualidade, o Prof, Peter Higgs, notou que, se fosse hoje não teria conseguido chegar à descoberta teórica do bosão com o seu nome. Segundo o que ele diz, podemos inferir que foi um trabalho lento e persistente, sem importantes descobertas intermédias (que lhe permitissem manter uma posição de investigador). Algumas coisas demoram o seu tempo. 

De facto, neste contexto, será de esperar que descobertas extraordinárias, sobretudo as que sejam disruptivas com o conhecimento anterior, sejam implacavelmente prevenidas. Porque é provável que exijam muito tempo de investigação sem dar resultados notáveis. Vou tentar explicar melhor.

De acordo com o filósofo da ciência Thomas Khun, a evolução científica processa-se de duas maneiras. De forma normal ou de forma revolucionária. 

A ciência normal é aquela que é construída incrementalmente sobre o conhecimento anterior. Passo a passo, sem mudar as regras.

A revolucionária é a que dá origem a novos paradigmas. Os paradigmas são, na pratica, novas plataformas conceptuais para se produzir ciência normal. São caracterizados por descobertas que lançam uma nova luz sobre a realidade e que podem não fazer grande sentido dentro do enquadramento teórico anterior. Ou seja, podem ser de valor questionável até se perceber se chegam a algum lado. Ou podem mesmo ser inconsistentes dentro dos paradigmas vigentes e por isso dificilmente compreensíveis  para o resto da comunidade (se forem totalmente incompreensíveis, como Khun propunha, não creio que pudessem chegar a ser formados, e aqui discordo ligeiramente de Khun - de facto algumas descobertas revolucionárias foram em pouco tempo adotadas e elogiadas, desde a teoria da evolução à da relatividade).

Então, é de prever que se houver pressão para publicar, os esforços dos cientistas sejam sobretudo de ciência normal, ou seja, incremental, sem arriscar caminhos potencialmente revolucionários mas que podem não levar a lado nenhum. É mais seguro explorar caminhos que dêem resultados imediatos e convincentes. De facto, afirmações extraordinárias requerem justificações extraordinárias, e isso é o trabalho de quem quer revolucionar a ciência.

Assim, dado a pressão para publicar, este domínio previsto da ciência normal é o que se verifica na prática. Apesar de haver uma quantidade de publicações crescentes e de o conhecimento duplicar a cada 9 anos, os artigos que formam a base do nosso conhecimento cientifico e são mais citados, estão cada vez mais velhos. Os artigos recentes são sobretudo citados durante um curto periodo de tempo após a sua publicação e vão perdendo pertinência rapidamente. Os nossos paradigmas em uso estão a envelhecer. Não há revoluções. 

Isso quer dizer que não há novos paradigmas para descobrir? Talvez, mas parece-me pouco provável. Parece-me que a explicação mais plausível, dado que há muita coisa que sabemos que não conseguimos explicar, é a de que não se descobrem novos paradigmas porque não os estamos a procurar como devíamos.

Isto quer dizer que a ciência nega as ideias loucas da pseudociência porque não está a funcionar de um modo que permita revoluções? Também não me parece, já que infelizmente a popularidade de muitas alegações pseudocientíficas levou a que se gastassem preciosos recursos a ver se havia ali alguma coisa de interessante. E uma coisa que não se pode dizer das revoluções científicas é que elas não provêm de investigação rigorosa. O método é fundamentalmente o mesmo. A intensidade do trabalho e a demora a chegar a resultados é que varia. Não é o mesmo que dizer algo do género: "não sabemos logo é verdade que... (colocar aqui pseudociência preferida)" como se propõe por aí.

Isto quer dizer que devia haver menor pressão para publicar? Provavelmente. Pelo menos na macro escala do empreendimento cientifico.. Assim vamos continuar a usar paradigmas centenários. 


Notar no entanto que de ponto de vista tecnológico isto tem sido muito eficaz, quero dizer, custo-eficiente ( o que não é de todo negligenciável). As nossas vidas têm melhorado muito com a aplicação incremental do conhecimento e provavelmente procurar novas teorias não é uma tarefa lucrativa. Resta dizer que se a tecnologia é a ciência orientada para produtos então que guardarão ainda os próximos paradigmas para nos trazer?